Seis operações sobre espectros hiperespectrais de vegetação — do denoising à desmistura linear — com desempenho reportado em cada etapa. Os espectros vêm de PROSAIL (não de instrumento físico): as acurácias medem separabilidade simulada, não um sensor real.
Neste post fechamos a série B com o pipeline que transforma o cubo bruto em abundâncias e índices utilizáveis.
As seis operações
- Remoção de ruído, com preservação das feições espectrais
- Remoção do contínuo, para normalizar feições de absorção
- Análise de derivadas, para realce de feições e detecção do red edge
- Redução de dimensionalidade, por PCA ou MNF
- Classificação supervisionada, para tipo de cultura e estresse
- Desmistura espectral, para estimativa de abundância em subpixel
Remoção de ruído
Dois métodos foram avaliados.
O filtro de Savitzky-Golay ajusta um polinômio de grau baixo a subconjuntos sucessivos de pontos adjacentes:
Os coeficientes decorrem do grau do polinômio e do tamanho da janela. O método preserva a posição e a amplitude de picos e vales, o que o torna adequado à análise de derivadas.
A remoção de ruído por wavelets decompõe o sinal pela transformada wavelet discreta em uma aproximação e detalhes em níveis:
O ruído concentra-se nos coeficientes de detalhe de alta frequência, que são limiarizados antes da reconstrução.

Espectroscopia de derivadas
A primeira derivada aproxima a taxa de variação da reflectância com o comprimento de onda. Ela cumpre três funções:
- Localizar a posição do red edge, que corresponde ao máximo da derivada entre 700 e 750 nm.
- Detectar pontos de inflexão pelos cruzamentos de zero.
- Reduzir variações de linha de base.
A derivada amplifica o ruído de alta frequência, razão pela qual a etapa de suavização a precede.

Redução de dimensionalidade e classificação
Um espectro de 512 bandas contém forte redundância entre bandas vizinhas. A análise de componentes principais encontra combinações lineares ortogonais que maximizam a variância. Nos dados simulados, cinco componentes principais capturam 95% da variância.
Uma alternativa é a transformação MNF, que ordena as componentes pela razão sinal-ruído em vez da variância. A distinção importa quando o ruído não é isotrópico entre bandas.
Dois classificadores foram comparados sobre as componentes retidas. A máquina de vetores de suporte atingiu acurácia de 65,2%. A floresta aleatória atingiu 86,4%.

As cargas das componentes principais e a importância de features convergem para a mesma região espectral. A borda do vermelho, entre 720 e 730 nm, concentra o poder discriminativo entre culturas. O resultado é coerente com o papel da clorofila na posição do red edge.
Desmistura espectral linear
Um pixel de sensor a 10 m de altitude cobre 1 mm no terreno, mas pixels de borda entre parcelas contêm mistura de coberturas. O modelo de mistura linear representa o espectro do pixel como combinação convexa de espectros puros, chamados membros extremos:
sujeito às restrições de não negatividade, , e de soma unitária, .

Sobre pixels mistos sintéticos de soja, milho e trigo, o erro absoluto médio de abundância ficou abaixo de 2%, e o erro quadrático médio dos resíduos abaixo de 0,005. Os resíduos baixos indicam que o modelo de mistura linear descreve adequadamente esses espectros sintéticos.
Esse resultado merece cautela. Os pixels mistos foram construídos por combinação linear dos mesmos membros extremos usados na inversão. O experimento verifica a consistência numérica do procedimento, e não a validade do modelo linear em cenas reais, onde o espalhamento múltiplo entre dosséis introduz mistura não linear.
Discussão
As cargas da PCA e a importância de features da floresta aleatória apontam ambas para a faixa de 720 a 730 nm. Essa convergência sugere que a informação discriminativa entre culturas concentra-se na borda do vermelho. O achado favorece um sensor com amostragem fina nessa região, em detrimento de cobertura espectral ampla.
A diferença de acurácia entre a floresta aleatória (86,4%) e a máquina de vetores de suporte (65,2%) não deve ser interpretada como superioridade geral do primeiro método. Os dois foram avaliados sobre espectros simulados, sem ruído instrumental realista e sem variabilidade de aquisição. A hierarquia entre classificadores pode inverter-se com dados medidos.
Limitações
- Os espectros são simulados por PROSAIL. Nenhum dado medido foi processado.
- Os valores de acurácia caracterizam a separabilidade das assinaturas simuladas, não o desempenho de um instrumento.
- Os pixels mistos da desmistura foram gerados pelo mesmo modelo linear usado na inversão.
- O ruído instrumental não foi modelado de forma realista nas etapas de classificação.
- A validação com verdade de campo permanece pendente.
Referências
- Savitzky, A., Golay, M. J. E. (1964). Smoothing and differentiation of data by simplified least squares procedures. Analytical Chemistry, 36(8), 1627-1639.
- Green, A. A. et al. (1988). A transformation for ordering multispectral data in terms of image quality with implications for noise removal. IEEE Transactions on Geoscience and Remote Sensing, 26(1), 65-74.
- Keshava, N., Mustard, J. F. (2002). Spectral unmixing. IEEE Signal Processing Magazine, 19(1), 44-57.
- Breiman, L. (2001). Random forests. Machine Learning, 45(1), 5-32.



