Espectros de reflectância de dossel de soja (Glycine max) simulados com PROSAIL em cinco estágios fenológicos: quais índices de vegetação um sensor restrito a – ainda computa, e se estresse hídrico versus deficiência de nitrogênio deixam assinaturas distinguíveis (NDVI–NDRE, red edge, absorção em ).
Neste post reportamos as curvas por estágio, a derivada no red edge e a discriminação de estresse — o que o push-broom da série “veria” antes de qualquer aquisição real.
O modelo
O PROSAIL acopla dois submodelos de transferência radiativa:
- PROSPECT descreve as propriedades ópticas foliares, parametrizadas pelo índice de estrutura (), clorofila (), carotenoides (), água () e matéria seca ().
- SAIL descreve a reflectância bidirecional do dossel, parametrizada pelo índice de área foliar (LAI), pela distribuição angular foliar (LIDF) e pelo hotspot.
Parametrização por estágio fenológico
Cinco estágios foram simulados, do vegetativo inicial à senescência. Os valores biofísicos provêm da literatura agronômica.
| Parâmetro | V4 | R3 | R5 | R7 | R8 |
|---|---|---|---|---|---|
| LAI (m²/m²) | 1,5 | 4,0 | 4,5 | 3,5 | 2,0 |
| (μg/cm²) | 25 | 45 | 50 | 30 | 10 |
| (μg/cm²) | 8 | 10 | 12 | 8 | 5 |
| (cm) | 0,010 | 0,015 | 0,020 | 0,012 | 0,008 |
| (g/cm²) | 0,005 | 0,008 | 0,009 | 0,007 | 0,006 |
| (estrutura) | 1,5 | 1,8 | 2,0 | 1,7 | 1,3 |
Os estágios correspondem, respectivamente, ao quarto trifólio expandido (V4), ao início da formação de vagens (R3), ao início do enchimento de grãos (R5), à maturidade (R7) e à senescência (R8). A LIDF foi fixada em e o hotspot em 0,01 em todos os casos.
Espectros simulados
Os espectros reproduzem as feições típicas de vegetação:
- Baixa reflectância no visível, associada à absorção por clorofila.
- Transição acentuada na região do red edge, entre 680 e 750 nm.
- Platô no infravermelho próximo, modulado por LAI e estrutura foliar.
- Bandas de absorção de água próximas a 970 nm e 1200 nm.

A derivada do red edge separa os estágios
A posição do red edge corresponde ao ponto de inflexão máxima da curva de reflectância entre 680 e 750 nm. Calculá-la pela derivada espectral evidencia a separação entre estágios.

O máximo da derivada ocorre em comprimentos de onda maiores nos estágios de maior teor de clorofila (R3 e R5), e desloca-se para comprimentos de onda menores na senescência (R8). O comportamento é consistente com a redução de clorofila ao longo do ciclo.
Índices de vegetação: quais são computáveis
Um sensor restrito a 700 a 1000 nm não acessa as bandas do visível. Essa restrição determina quais índices podem ser calculados.
O NDVI relaciona as bandas do infravermelho próximo e do vermelho:
O NDRE substitui a banda do vermelho pela borda do vermelho:
| Índice | V4 | R3 | R5 | R7 | R8 |
|---|---|---|---|---|---|
| NDVI | 0,823 | 0,906 | 0,906 | 0,883 | 0,747 |
| NDRE | 0,211 | 0,355 | 0,365 | 0,291 | 0,264 |
| REP (nm) | 703 | 724 | 724 | 703 | 697 |

Dois índices de uso comum não são computáveis nessa faixa. O GNDVI requer a banda verde em 550 nm, fora do intervalo do sensor. O EVI requer a banda azul, próxima a 450 nm, além da banda vermelha em 680 nm. Ambos exigiriam estender a cobertura espectral ao visível.
Cabe notar que o próprio NDVI usa , que está marginalmente abaixo do corte de 700 nm. Os valores tabelados derivam do espectro PROSAIL completo, e não da resposta do sensor restrito.
Discriminação entre estresse hídrico e deficiência de nitrogênio
Sete cenários foram simulados, partindo de um dossel saudável em R5, com reduções progressivas em (estresse hídrico) ou em (deficiência de nitrogênio).
| Cenário | LAI | ||
|---|---|---|---|
| Saudável | 4,5 | 50 | 0,020 |
| Estresse hídrico leve | 4,2 | 48 | 0,016 |
| Estresse hídrico moderado | 3,8 | 45 | 0,012 |
| Estresse hídrico severo | 3,2 | 40 | 0,008 |
| Deficiência de N leve | 4,3 | 40 | 0,019 |
| Deficiência de N moderada | 4,0 | 30 | 0,018 |
| Deficiência de N severa | 3,5 | 20 | 0,017 |
Os dois tipos de estresse reduzem o NDVI, o que impede a discriminação por um índice isolado. As assinaturas divergem, porém, em dois indicadores.
O deslocamento da posição do red edge é o discriminante mais claro. Sob estresse hídrico severo, a REP desloca-se apenas nm, de 725 para 719 nm. Sob deficiência de nitrogênio severa, o deslocamento é de nm, de 725 para 700 nm. A diferença decorre do mecanismo. A deficiência de nitrogênio reduz diretamente a clorofila, que governa a posição do red edge. O estresse hídrico atua primeiro sobre o conteúdo de água.
O segundo indicador é a profundidade da feição de absorção de água em 970 nm. Ela torna-se mais rasa sob estresse hídrico, e permanece aproximadamente estável sob deficiência de nitrogênio.

A combinação dos dois eixos, portanto, sugere separação entre os tipos de estresse, o que um índice único não fornece.
Extensão a outras culturas
A mesma parametrização foi aplicada às principais culturas do estado do Paraná, com milho, soja, cana-de-açúcar e trigo simulados em seus respectivos calendários.

Limitações
- Os resultados são de simulação física. Não há validação com medidas de campo.
- Os parâmetros biofísicos derivam da literatura, e não de amostragem local.
- Apenas a soja foi parametrizada em detalhe. A generalização a outras espécies requer verificação.
- O dossel é tratado como homogêneo, sem variabilidade espacial interna.
- A geometria de aquisição é fixa no nadir, sem variação diurna.
- A simulação é estática. Não há dinâmica temporal dentro de cada estágio.
- Os efeitos atmosféricos não foram incorporados.
Referências
- Jacquemoud, S., Baret, F. (1990). PROSPECT: A model of leaf optical properties spectra. Remote Sensing of Environment, 34(2), 75-91.
- Verhoef, W. (1984). Light scattering by leaf layers with application to canopy reflectance modeling: the SAIL model. Remote Sensing of Environment, 16(2), 125-141.
- Jacquemoud, S. et al. (2009). PROSPECT + SAIL models: A review of use for vegetation characterization. Remote Sensing of Environment, 113, S56-S66.



