Projeto óptico de um sensor hiperespectral push-broom para o infravermelho próximo

João LeonardiJoão LeonardiORCID6 min
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Projeto óptico e simulação de desempenho de um sensor hiperespectral push-broom para espectroscopia agrícola no NIR (7007001000nm1000\,\mathrm{nm}): arquitetura (fenda → colimador → dispersor → detector), equações de projeto, PSF e razão sinal-ruído. Trabalho de simulação — sem protótipo físico nem medida de bancada.

Neste post fechamos o desenho do instrumento que a série B usa como âncora; os posts seguintes tratam da óptica de entrada (aberração cromática), do que o sensor veria na soja (PROSAIL) e do pipeline espectral.

O princípio push-broom

Um sensor push-broom registra uma linha espacial por vez. A luz da cena é focalizada sobre uma fenda estreita, que seleciona uma linha do terreno. Um colimador transforma o feixe divergente em paralelo, e um elemento dispersivo separa os comprimentos de onda ao longo do eixo perpendicular à fenda. Um detector bidimensional registra, assim, uma dimensão espacial e uma dimensão espectral simultaneamente.

A segunda dimensão espacial vem do movimento da plataforma. O empilhamento das linhas sucessivas forma o cubo hiperespectral.

Esquema do princípio push-broom. A fenda seleciona uma linha da cena; o colimador e o elemento dispersivo separam os comprimentos de onda sobre um detector bidimensional. A segunda dimensão espacial resulta do movimento da plataforma.
Esquema do princípio push-broom. A fenda seleciona uma linha da cena; o colimador e o elemento dispersivo separam os comprimentos de onda sobre um detector bidimensional. A segunda dimensão espacial resulta do movimento da plataforma.

Especificação dos componentes

ComponenteEspecificaçãoFunção
Objetivaf=50f = 50 mm, f/2,8f/2{,}8Formação da imagem da cena
Filtro dicroicoCorte em 700 nm, R > 97%Separação VIS/NIR
Fenda de entrada50×500050 \times 5000 μmSeleção da linha espacial
Colimadorf=50f = 50 mm, \varnothing 25 mmColimação do feixe
Grade de difração600 linhas/mm, blaze em 800 nmDispersão espectral
Lente de câmeraf=50f = 50 mm, f/4f/4Focalização do espectro
Detector512×512512 \times 512 pixels, passo de 5 μmRegistro da imagem

Dispersão pela grade

A equação da grade relaciona o ângulo de difração β\beta ao comprimento de onda, para ângulo de incidência α\alpha, ordem mm e período dd:

d(sinα+sinβ)=mλd \left( \sin\alpha + \sin\beta \right) = m \lambda

A derivada dessa relação fornece a dispersão angular, que quantifica a separação em ângulo por unidade de comprimento de onda:

dβdλ=mdcosβ\frac{d\beta}{d\lambda} = \frac{m}{d \cos\beta}

Para a grade de 600 linhas/mm na primeira ordem, a dispersão angular resulta em 0,622 mrad/nm. Multiplicada pela distância focal da lente de câmera, fornece a dispersão linear de 31,1 μm/nm no plano do detector.

Análise de dispersão da grade de difração. A dispersão angular e a dispersão linear determinam a distribuição dos comprimentos de onda sobre o detector.
Análise de dispersão da grade de difração. A dispersão angular e a dispersão linear determinam a distribuição dos comprimentos de onda sobre o detector.

Resolução espacial

A distância de amostragem no terreno decorre do passo do pixel pp, da altitude HH e da distância focal da objetiva fof_o:

GSD=pHfo=5×106×1050×103=1,0 mm\mathrm{GSD} = \frac{p \cdot H}{f_o} = \frac{5 \times 10^{-6} \times 10}{50 \times 10^{-3}} = 1{,}0 \ \mathrm{mm}

A 10 m de altitude, a amostragem no terreno é de 1,0 mm e a faixa imageada tem 1,0 m de largura.

O limite óptico é dado pelo disco de Airy. A largura a meia altura da função de espalhamento de ponto cresce linearmente com o comprimento de onda. Ela vai de 2,02 μm em 700 nm a 2,88 μm em 1000 nm, passando por 2,45 μm em 850 nm. Todos esses valores são menores que o passo do pixel de 5 μm.

A resolução espacial é, portanto, limitada pelo detector e não pela óptica.

Análise da função de espalhamento de ponto. A largura a meia altura cresce de 2,02 μm em 700 nm para 2,88 μm em 1000 nm, permanecendo abaixo do passo do pixel de 5 μm.
Análise da função de espalhamento de ponto. A largura a meia altura cresce de 2,02 μm em 700 nm para 2,88 μm em 1000 nm, permanecendo abaixo do passo do pixel de 5 μm.

Resolução espectral: o número teórico e o realizável

O poder de resolução de uma grade depende da ordem mm e do número de ranhuras iluminadas NN:

R=mNR = m N

Com o colimador de 25 mm iluminando a grade de 600 linhas/mm, tem-se N=15.000N = 15{.}000 ranhuras, e portanto R=15.000R = 15{.}000 na primeira ordem. Isso corresponde a uma resolução espectral teórica de

Δλteoˊrico=λR=85015.000=0,057 nm\Delta\lambda_{\text{teórico}} = \frac{\lambda}{R} = \frac{850}{15{.}000} = 0{,}057 \ \mathrm{nm}

Esse valor não é realizável neste sistema. O intervalo de amostragem espectral é fixado pelo detector:

Δλamostragem=1000700512=0,586 nm/banda\Delta\lambda_{\text{amostragem}} = \frac{1000 - 700}{512} = 0{,}586 \ \mathrm{nm/banda}

O sistema é sobreamostrado espectralmente por um fator de aproximadamente 10. Pelo critério de Nyquist, dois pixels são necessários por elemento resolvido, o que limita a resolução utilizável a cerca de 1,17 nm. A resolução prática é, portanto, cerca de vinte vezes pior que o valor teórico da grade.

Há duas razões adicionais para tratar R=15.000R = 15{.}000 como limite superior. O cálculo pressupõe que os 25 mm de abertura do colimador estejam plenamente iluminados, o que a altura de 5 mm da fenda pode não garantir. Além disso, o poder de resolução efetivo tende a ser limitado pela largura da fenda, e não pela grade.

A leitura correta é que a grade está superdimensionada para a amostragem escolhida. Uma grade de 300 linhas/mm atenderia o mesmo intervalo de amostragem, e a sobreamostragem remanescente pode ser aproveitada para redução de ruído por binning espectral e para análise de derivadas.

Transmitância e razão sinal-ruído

A transmitância do caminho óptico no infravermelho próximo é o produto das eficiências dos componentes:

TNIR=0,95×0,97×0,95×0,70×0,95×0,90=0,524T_{\mathrm{NIR}} = 0{,}95 \times 0{,}97 \times 0{,}95 \times 0{,}70 \times 0{,}95 \times 0{,}90 = 0{,}524

Os fatores correspondem, na ordem, à objetiva, à reflexão do dicroico, ao colimador, à eficiência da grade, à lente de câmera e à eficiência quântica do detector. O valor de 52,4% pressupõe condições ideais. Implementações práticas tendem a atingir 35 a 40%.

A análise radiométrica, sob radiância típica de vegetação, indica razão sinal-ruído entre 85 e 180 para 10 ms de integração. O valor menor ocorre na região do red edge, onde a reflectância da vegetação é baixa, e o maior no platô do infravermelho próximo. A dependência da razão sinal-ruído com a raiz quadrada do tempo de integração é característica do regime limitado por ruído de fóton.

Análise da razão sinal-ruído. À esquerda, a variação com o comprimento de onda para 10 ms de integração. À direita, a dependência com o tempo de integração em 850 nm, com o comportamento de raiz quadrada típico do regime limitado por ruído de fóton.
Análise da razão sinal-ruído. À esquerda, a variação com o comprimento de onda para 10 ms de integração. À direita, a dependência com o tempo de integração em 850 nm, com o comportamento de raiz quadrada típico do regime limitado por ruído de fóton.

Uma razão sinal-ruído acima de 100 é adequada para o cálculo de índices de vegetação e para a análise de derivadas do red edge. A correção atmosférica requer valores acima de 300, fora do alcance desta configuração.

Resumo do desempenho simulado

ParâmetroValor
Faixa espectral700 a 1000 nm
Bandas espectrais512
Amostragem espectral0,586 nm/banda
Resolução espectral utilizável (Nyquist)~1,17 nm
Resolução espectral teórica da grade0,057 nm
Amostragem no terreno (10 m)1,0 mm
Largura da faixa imageada (10 m)1,0 m
Largura a meia altura da PSF (850 nm)2,45 μm
Dispersão angular0,622 mrad/nm
Dispersão linear31,1 μm/nm
Transmitância (ideal)52,4%

Limitações

  • O trabalho é de simulação. Não há protótipo físico nem validação de bancada.
  • O poder de resolução de 15.000 pressupõe iluminação plena do colimador. A geometria da fenda pode não satisfazer essa condição.
  • A resolução espectral utilizável é limitada pela amostragem, não pela grade.
  • A transmitância de 52,4% pressupõe condições ideais dos componentes.
  • Os modelos de aberração adotados são simplificados.
  • Os efeitos atmosféricos não foram incorporados à análise radiométrica.

Referências

  • Born, M., Wolf, E. (1999). Principles of Optics. 7th ed. Cambridge University Press.
  • Palmer, C. (2005). Diffraction Grating Handbook. Newport Corporation.

Na série Sensor hiperespectral e vegetação