A máscara semântica delimita petroglifos; não compara painéis. Este post documenta um protocolo de análise espectral e sonificação sobre fotografias do Complexo Arqueológico Poço da Bebidinha (Buriti dos Montes, PI): DFT 2D, filtragem espacial, envelope de Hilbert, manipulação de fase e síntese PCM a — descritores de frequência espacial projetados no domínio audível (parameter-mapping sonification).
O eixo complementa a segmentação BEGL-UNet [arXiv:2511.11959]: onde a máscara responde onde está a gravura, o espectro–áudio contribui para como o painel se organiza — densidade de motivos, escala espacial dominante, textura do substrato — sob iluminação de campo e geologia distinta. Fotografias de campo permanecem sob restrição de patrimônio arqueológico.
1. Problema e motivação científica
O nordeste brasileiro concentra milhares de sítios arqueológicos registrados pelo IPHAN. O Parque Nacional Serra da Capivara abriga mais de mil sítios com manifestações rupestres; o Poço da Bebidinha, às margens do Rio Poti, contém petroglifos de baixo relevo em afloramentos de paragneiss da Unidade Canindé — motivos geométricos, zoomorfos e antropomorfos associados às tradições Nordeste e Agreste (Melo et al., 2025). A documentação digital é urgente diante de erosão, colonização biológica, depósitos minerais e vandalismo.
A segmentação automática viabiliza inventário de motivos, medição de densidade por painel e monitoramento temporal de degradação. Contudo, comparar painéis — ou generalizar de um sítio a outro — exige mais do que a sobreposição de máscaras: padrões periódicos (grades de cupules, sequências de marcas, reticulados) e a textura do substrato induzem energia em bandas específicas do espectro de Fourier bidimensional, informação apenas parcialmente capturada por limiarização clássica ou por redes treinadas para classificação pixel a pixel.
Do ponto de vista de processamento de sinais, a fotografia de um painel é um campo escalar amostrado em grade regular. Formulamos três questões alinhadas à agenda de segmentação e comparação:
- Q1 — Como se distribui a energia espectral espacial entre substrato (baixas frequências) e gravura (médias/altas frequências) em painéis de baixo contraste, e essa distribuição é estável o bastante para discriminar painéis ou condições de aquisição?
- Q2 — Em que medida a fase determina a estatística de intensidades reconstruídas, independentemente da magnitude (Oppenheim & Lim, 1981) — com implicações para realce de motivos antes da segmentação?
- Q3 — A parameter-mapping sonification de mapas derivados (, , envelope analítico) produz assinaturas espectrais discrimináveis, utilizáveis como descritores auxiliares na comparação entre painéis (e, futuramente, entre sítios)?
A sonificação é tratada como instrumento de análise exploratória e de comunicação científica, não como medição acústica in situ do afloramento. O mapeamento frequência espacial frequência temporal é convencional e deve ser interpretado como tal (Kramer et al., 1999; Hermann et al., 2011).
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2. Fundamentos e trabalho relacionado
2.1 DFT bidimensional e filtragem espacial
Seja a luminância normalizada. A transformada discreta de Fourier 2D é
com inversa correspondente . Adotamos a convenção de espectro centrado (fftshift), de modo que ocupe o centro da grade. O espectro de magnitude para visualização é .
A remoção da componente contínua (e vizinhança de baixas frequências) corresponde a um filtro passa-alta ideal por máscara binária :
com o centro espectral e o semi-lado da janela (tipicamente px, ou ). A imagem filtrada é .
2.2 Gradiente e sinal analítico
O mapa de bordas emprega o operador de Sobel , com magnitude , análogo a um detector de transientes em sinais 1D.
O envelope analítico é obtido pela transformada de Hilbert aplicada ao vetorização de :
captura a envoltória de amplitude local e atenua oscilações de alta frequência espacial relativas a .
2.3 Importância da fase
Oppenheim & Lim (1981) demonstraram que a fase do espectro de Fourier carrega informação estrutural crítica: reconstruções a partir de (com magnitude constante ou de outra imagem) preservam contornos inteligíveis, ao passo que o inverso tipicamente não. Em arte rupestre, isso implica que manipulações de fase — globais ou localizadas no DC — alteram a topologia aparente do motivo mesmo quando permanece fixa.
2.4 Sonificação por mapeamento de parâmetros
Seguimos a taxonomia de Hermann et al. (2011): parameter-mapping sonification associa dimensões de dados a parâmetros acústicos (tempo, amplitude, frequência). No protocolo adotado, a dimensão espacial (após vetorização row-major) é mapeada no tempo , e a amplitude do mapa derivado controla a forma de onda PCM. Não há síntese aditiva por frequência espacial dominante; a discriminação entre mapas emerge da densidade espectral do sinal resultante.
3. Protocolo experimental
3.1 Pré-processamento
| Etapa | Especificação |
|---|---|
| Entrada | Fotografia RGB de painel; conversão para luminância via rgb2gray |
| Normalização | |
| Redimensionamento (figuras deste registro) | escala máxima px no maior lado, anti-aliasing |
| Biblioteca | NumPy, SciPy (fft, signal), scikit-image |
3.2 Pipeline espectral
Para cada painel calculam-se: (i) e ; (ii) ; (iii) ; (iv) envelope ; (v) espectrograma de Welch/STFT da média das linhas , com nperseg adaptativo.

Observação qualitativa consistente com a hipótese de Q1: a densidade espectral do espectrograma espacial concentra-se em baixas frequências normalizadas, compatível com iluminação e morfologia de afloramento em larga escala; a gravura contribui como modulação de maior frequência espacial sobre esse fundo.

3.3 Síntese PCM
Seja um mapa normalizado em . Define-se o sinal temporal por interpolação linear do vetor sobre a grade , , com :
Parâmetros fixos: , nas figuras deste registro ( nos ensaios), quantização PCM 16-bit (int16).
| Mapa | Interpretação espectral esperada |
|---|---|
| Energia dominante em baixas frequências temporais (substrato + iluminação) | |
| Maior contribuição em médios/agudos (contornos) | |
| Envelope mais suave; atenuação relativa de componentes de alta frequência |

Os três espectros exibem estrutura harmônica correlacionada à periodicidade da varredura raster, porém com floor e distribuição de energia distintos — evidência preliminar a favor de Q3, ainda sem teste estatístico formal entre painéis.
A localização de um motivo no espectro de uma cena completa foi explorada via correlação cruzada entre densidades espectrais de magnitude do painel e de um recorte (template matching no domínio da frequência) — passo preliminar à comparação automática entre regiões de interesse no mesmo afloramento.
3.4 Manipulação de fase
Rotação global. Para , :
seguida de reescalonamento de intensidade para .

Estatística de intensidades. Histogramas de mostram transição de distribuições assimétricas (com massa em saturação) para formas aproximadamente unimodais e simétricas na vizinhança de , corroborando o papel da fase na estatística espacial (Q2).

Projeção auditiva da fase. A linha central de para é exportada como PCM. A variação auditiva entre fases, sob magnitude espacial aproximadamente constante, ilustra empiricamente o resultado clássico de Oppenheim & Lim no domínio sonoro.

3.5 Cancelamento de fase local e filtro de crossover
Para realce de estruturas de escala intermediária, aplica-se inversão de fase apenas na janela de baixas frequências :
Seja . Em seguida, um filtro Butterworth passa-banda de ordem , denotado , é aplicado ao sinal vetorizado, com mistura residual
Dois regimes de parâmetros foram empregados:
| Regime | Uso | ||
|---|---|---|---|
| Visualização | (simbólica) | Isolamento visual de figura | |
| Sonificação | PCM audível |
O contraste de para exibição é ajustado por reescalonamento e contrast-limited adaptive histogram equalization (CLAHE).


4. Descritores no domínio audível
Tratando (ou vetorizado) como processo 1D, estima-se a densidade espectral de potência pelo método de Welch. A energia é agregada em bandas padronizadas da engenharia de áudio:
| Banda | Intervalo (Hz) | Hipótese de correspondência espacial |
|---|---|---|
| Sub-bass | 20–60 | Morfologia de afloramento / iluminação global |
| Bass | 60–250 | Formas de grande escala dos motivos |
| Low–mid / Mid | 250–2000 | Textura intermediária da gravura |
| Presence / Brilliance | 4000–20000 | Detalhe fino, ruído de sensor, granulometria |
Complementarmente, calculam-se assimetria (skewness) e curtose (kurtosis) do espectro de fase angular, além de centroide espectral, rolloff, cromagrama e coeficientes MFCC. Esses descritores constituem candidatos a features para comparação entre painéis — e, em estudos futuros, entre sítios do nordeste — independentemente ou em conjunto com máscaras de segmentação.

5. Decomposição radiométrica por canal
Como etapa preliminar à análise espectral–acústica, os canais são projetados sobre o intervalo do espectro visível , com inspeção de histogramas por canal. Em painéis reais, assimetrias entre canais correlacionam-se a depósitos de óxidos, colonização biológica e variações de iluminante — fatores que também modulam a energia nas bandas temporais após a sonificação e que diferem entre contextos geológicos (p.ex. paragneiss brasileiro versus calcário em corpora europeus; Bai et al., 2023). Essa etapa é radiométrica-exploratória: câmeras RGB de consumo não constituem espectrômetros calibrados.

6. Parâmetros do protocolo
| Parâmetro | Valor |
|---|---|
| – | |
| (máscara DC) | ou |
| , | |
| Ordem Butterworth | |
| (crossover) | |
| Quantização PCM | 16-bit (int16) |
| Stack numérico | NumPy, SciPy (fft, signal), scikit-image; descritores audíveis via librosa |
Um exemplo de síntese do mapa () acompanha este registro como material suplementar sonoro.
7. Limitações e validade
- Escopo geográfico atual. Os experimentos concentram-se em painéis do Poço da Bebidinha; a generalização para outros sítios do Piauí e da Serra da Capivara — objetivo explícito da linha de comparação — ainda não foi avaliada.
- Não unicidade do mapeamento espaço–tempo. A ordem de vetorização (linha, coluna, espiral, distância radial ao DC) altera sem alterar . Conclusões auditivas são relativas ao protocolo de varredura adotado.
- Convenção, não metrologia acústica. Frequências do PCM não medem ressonância física do afloramento; medem a imagem amostrada sob um mapeamento escolhido.
- Ausência de inferência estatística. Não há teste de hipótese entre sítios, tradições estilísticas ou condições de iluminação; os resultados são observacionais e metodológicos.
- Dependência de aquisição. Distância focal, resolução, compressão JPEG e geometria de iluminação confundem o espectro espacial e, portanto, qualquer comparação entre campanhas de campo.
8. Direções de pesquisa
No horizonte da segmentação e comparação de petroglifos brasileiros, as extensões naturais são:
- Sonificação e descritores espectrais condicionados à máscara do Attention-Residual BEGL-UNet (Melo et al., 2025): comparar (gravura) versus (substrato), isolando a assinatura do motivo da do afloramento.
- Comparação entre sítios: vetores (potência por banda + MFCC + estatísticas de fase) com validação cruzada por painel e por sítio, testando estabilidade sob geologias e tradições distintas.
- Mapeamento radial no domínio de Fourier ( → frequência temporal), alinhado à interpretação física de escala espacial.
- Integração com realce pré-segmentação: usar (fase local + crossover) como entrada alternativa às redes U-Net, medindo impacto em DSC/MIoU.
- Expansão do corpus fotográfico para outros sítios do nordeste, em paralelo à ampliação do dataset de segmentação já prevista em Melo et al. (2025).
9. Conclusão
No âmbito da pesquisa sobre segmentação e comparação de petroglifos em sítios brasileiros, o protocolo espectro–áudio formaliza a fotografia de painel como sinal bidimensional: a DFT 2D decompõe substrato e gravura em escalas; a fase controla a estatística e a topologia aparente da reconstrução; a sonificação por mapeamento de parâmetros torna discrimináveis, no domínio audível, diferenças entre intensidade, gradiente e envelope. Esse eixo não substitui a segmentação semântica — fornece descritores e hipóteses de escala que a máscara binária sozinha não evidencia, e que são necessários para comparar painéis e, progressivamente, sítios. A validade científica do método depende, daqui em diante, de protocolos de varredura fixos, condicionamento por máscara segmentada e avaliação estatística multi-sítio.
Referências
- Bai, C., Liu, Y., Zhou, P., Wang, X., & Zhou, M. (2023). BEGL: boundary enhancement with Gaussian Loss for rock-art image segmentation. Heritage Science, 11(1). https://doi.org/10.1186/s40494-022-00857-5
- Bracewell, R. N. (2000). The Fourier Transform and Its Applications (3rd ed.). McGraw-Hill.
- Hermann, T., Hunt, A., & Neuhoff, J. G. (Eds.). (2011). The Sonification Handbook. Logos Verlag.
- Kramer, G., Walker, B., Bonebright, T., Cook, P., Flowers, J., Miner, N., & Neuhoff, J. (1999). Sonification Report: Status of the Field and Research Agenda. International Community for Auditory Display (ICAD).
- Melo, L., Vieira, L. G. D. M. L., & Araújo, M. (2025). Evaluation of Attention Mechanisms in U-Net Architectures for Semantic Segmentation of Brazilian Rock Art Petroglyphs. arXiv:2511.11959.
- Oppenheim, A. V., & Lim, J. S. (1981). The importance of phase in signals. Proceedings of the IEEE, 69(5), 529–541. https://doi.org/10.1109/PROC.1981.12022
- Oppenheim, A. V., & Schafer, R. W. (2010). Discrete-Time Signal Processing (3rd ed.). Prentice Hall.
- Welch, P. D. (1967). The use of fast Fourier transform for the estimation of power spectra. IEEE Transactions on Audio and Electroacoustics, 15(2), 70–73.

