Segmentação de petroglifos brasileiros com BEGL-UNet e mecanismos de atenção

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Comparação de três arquiteturas U-Net com perda BEGL (Boundary-Enhanced Gaussian Loss) na segmentação semântica de petroglifos do Complexo Arqueológico Poço da Bebidinha (Buriti dos Montes, PI). Sobre 82 imagens anotadas, em validação cruzada 5-fold, a variante Attention-Residual BEGL-UNet atinge DSC 0,7100{,}710 — resultado documentado em [arXiv:2511.11959].

Neste post reportamos as arquiteturas, o protocolo de treino (PyTorch), ablações de pré-processamento e as métricas por fold. O dataset de petroglifos não está versionado no git — permanece local por restrições de patrimônio arqueológico.


1. Motivação: patrimônio rupestre em degradação

O nordeste brasileiro concentra milhares de sítios arqueológicos registrados pelo IPHAN. O Parque Nacional Serra da Capivara (Piauí) abriga mais de mil sítios com manifestações rupestres. O Poço da Bebidinha, às margens do Rio Poti, contém petroglifos de baixo relevo gravados em afloramentos de paragneiss da Unidade Canindé — motivos geométricos, zoomorfos e antropomorfos associados às tradições Nordeste e Agreste.

A documentação digital desses registros é urgente: erosão, colonização por líquens, depósitos minerais e vandalismo degradam as gravuras progressivamente. A segmentação automática de petroglifos em fotografias de campo permitiria:

  • inventário sistemático de motivos gravados;
  • medição de dimensões e densidade de gravuras por painel;
  • monitoramento temporal de degradação;
  • integração futura com reconstrução 3D de afloramentos.

O problema é tecnicamente difícil. Petroglifos apresentam baixo contraste radiométrico contra o substrato rochoso, iluminação não controlada, sobreposição cronológica de gravuras e depósitos de óxidos de ferro que ocluem os motivos. Métodos clássicos de limiarização adaptativa e detecção de bordas produzem taxas de falso positivo superiores a 40% neste domínio.


2. BEGL-UNet: por que a perda importa tanto quanto a arquitetura

Bai et al. (2023) propuseram o BEGL-UNet para segmentação de arte rupestre europeia (dataset 3D-Pitoti), alcançando DSC de 0,865 — estado da arte no domínio. A contribuição central não é apenas a arquitetura U-Net, mas a função de perda que penaliza imprecisão nas bordas das gravuras:

LBEGL=αLG+βLBCE\mathcal{L}_{\mathrm{BEGL}} = \alpha \cdot \mathcal{L}_G + \beta \cdot \mathcal{L}_{\mathrm{BCE}}

onde LBCE\mathcal{L}_{\mathrm{BCE}} é a entropia cruzada binária e LG\mathcal{L}_G é o erro quadrático médio entre mapas de borda gaussianos da predição e do ground truth:

LG=MSE(G(y^),  G(y))\mathcal{L}_G = \mathrm{MSE}\bigl(\mathcal{G}(\nabla \hat{y}),\; \mathcal{G}(\nabla y)\bigr)

O gradiente \nabla usa filtros de Sobel; o filtro gaussiano G\mathcal{G} tem kernel 5×5 e σ=0,8\sigma = 0{,}8. Os pesos adotados são α=0,001\alpha = 0{,}001 e β=1,0\beta = 1{,}0.

A intuição física é direta: em petroglifos de baixo relevo, a fronteira entre gravura e rocha é o sinal mais frágil. Penalizar diretamente a qualidade das bordas preditas força a rede a aprender contornos nítidos mesmo quando o contraste global é baixo.


3. Três arquiteturas comparadas

Todas as variantes compartilham a perda BEGL e o protocolo de treinamento. A variável experimental é o mecanismo de atenção no decoder.

3.1 BEGL-UNet (baseline)

Implementação fiel ao U-Net original de Ronneberger et al. (2015): encoder com blocos de dupla convolução 3×3 (canais 3→64→128→256→512), bottleneck de 1024 canais, decoder com convoluções transpostas e skip connections diretas. Sem blocos residuais nem atenção.

3.2 Attention-Residual BEGL-UNet

Integra blocos residuais pós-ativação (He et al., 2016) com attention gates de Oktay et al. (2018) em cada nível do decoder. O gate suprime features irrelevantes do encoder antes da concatenação:

x^=xσ ⁣(Conv1×1 ⁣(ReLU(Wgg+Wxx)))\hat{x} = x \odot \sigma\!\left(\mathrm{Conv}_{1\times1}\!\left(\mathrm{ReLU}(W_g g + W_x x)\right)\right)

onde gg é o sinal do decoder e xx são as features do encoder.

3.3 SCA-BEGL-UNet (Spatial-Channel Attention)

Combina os attention gates com módulos CBAM (Woo et al., 2018): atenção de canal (redução 16:1, pooling médio e máximo paralelos) seguida de atenção espacial (convolução 7×7 sobre estatísticas de canal). A sequência canal→espacial é aplicada dentro de cada bloco de atenção híbrida.


4. Dataset e protocolo experimental

ParâmetroValor
SítioPoço da Bebidinha, Buriti dos Montes, PI
Imagens anotadas82 (máscaras binárias manuais)
Resolução512 × 512 px, normalização [0, 1]
Augmentação6× por imagem de treino (Albumentations)
Validação5-fold cross-validation, 30 épocas/fold
OtimizadorAdam, lr = 10410^{-4}, batch = 2
HardwareNVIDIA RTX 4070 Super (12 GB)
Seed42 (NumPy, PyTorch, CUDA)

As transformações de augmentação incluem flip horizontal e vertical, deformação elástica (α=120\alpha = 120, σ=6\sigma = 6), distorção óptica e distorção em grade — preservando a morfologia dos motivos gravados sem alterar a topologia das máscaras de forma irrealista.


5. Resultados

5.1 Comparação entre arquiteturas (5-fold CV, época 30)

ArquiteturaVal LossDSCPrecisãoRecallMIoUPixel Acc
BEGL-UNet (baseline)0,0770,6900,6170,8340,5490,968
Attention-Residual BEGL-UNet0,0670,7100,6290,8540,5660,967
SCA-BEGL-UNet0,0810,7070,6180,8570,5590,968

O Attention-Residual BEGL-UNet obteve o melhor desempenho global: DSC de 0,710 (+2,9% sobre o baseline) e menor perda de validação (0,067). O SCA-BEGL-UNet alcançou recall ligeiramente superior (0,857), indicando melhor detecção em cenários de sobreposição cronológica — ao custo de precisão marginalmente menor.

Comparação de métricas entre as três arquiteturas em validação cruzada 5-fold. A linha tracejada marca o DSC de 0,865 reportado por Bai et al. no dataset europeu 3D-Pitoti.
Comparação de métricas entre as três arquiteturas em validação cruzada 5-fold. A linha tracejada marca o DSC de 0,865 reportado por Bai et al. no dataset europeu 3D-Pitoti.

5.2 Convergência

Todas as arquiteturas convergiram antes da época 30. O Attention-Residual apresentou a curva de DSC mais estável entre folds, com menor variância inter-fold (±0,106 vs ±0,129 do baseline).

Curvas de DSC médio ao longo das 30 épocas de treinamento, com banda de ±1 desvio padrão entre os 5 folds.
Curvas de DSC médio ao longo das 30 épocas de treinamento, com banda de ±1 desvio padrão entre os 5 folds.

5.3 Gap em relação ao 3D-Pitoti

Bai et al. reportaram DSC de 0,865 e MIoU de 0,840 no dataset europeu 3D-Pitoti (548 patches augmentados de calcário). Nossos resultados no Poço da Bebidinha ficam substancialmente abaixo (DSC ~0,71). Isso é esperado e não invalida a abordagem:

  • Geologia distinta: paragneiss brasileiro vs calcário alpino — padrões de erosão e contraste espectral diferentes.
  • Estilo artístico: tradição Nordeste com sobreposição cronológica vs convenções do Paleolítico europeu.
  • Tamanho da amostra: 82 imagens vs centenas de patches europeus.
  • Condições de campo: iluminação natural não controlada vs documentação em ambiente de caverna.

O valor do trabalho está em estabelecer uma linha de base reproduzível para petroglifos brasileiros, não em superar o SOTA europeu no primeiro experimento.

5.4 Resultado negativo: pré-processamento CLAHE

Um experimento colateral testou pré-processamento com CLAHE (Contrast Limited Adaptive Histogram Equalization) antes do treinamento. O efeito foi deletério: MIoU caiu de ~0,66 para ~0,42 no baseline BEGL-UNet. O realce local de contraste amplifica artefatos de iluminação e depósitos minerais, confundindo a rede mais do que ajudando.

MIoU de validação com e sem pré-processamento CLAHE no BEGL-UNet baseline (treino completo, 60 épocas).
MIoU de validação com e sem pré-processamento CLAHE no BEGL-UNet baseline (treino completo, 60 épocas).


6. Casos de falha

Três condições degradaram o desempenho de todas as arquiteturas de forma similar:

  1. Sobreposição cronológica — gravuras executadas em fases temporais distintas criam fronteiras ambíguas entre motivos.
  2. Depósitos minerais e colonização biológica — crostas de óxido de ferro e líquens ocluem parcialmente os padrões.
  3. Baixo contraste radiométrico — variabilidade na composição mineralógica do gneiss e iluminação descontrolada limitam a diferenciação espectral entre gravura e substrato.

O SCA-BEGL-UNet, com maior recall, é preferível quando a prioridade é não perder gravuras parcialmente visíveis; o Attention-Residual, com melhor precisão, é preferível quando falsos positivos devem ser minimizados.


7. Implementação e reprodutibilidade

O repositório 628-Segmentation organiza o código em:

CaminhoConteúdo
notebooks/scripts/default-begl_unet.pyBaseline BEGL-UNet + 5-fold CV
notebooks/scripts/attention_residual_begl_unet.pyAttention-Residual + 5-fold CV
notebooks/scripts/sca-begl-unet.pySCA-BEGL-UNet (CeSaBEGLUnet)
notebooks/create_dataset.ipynbPipeline de augmentação 6×
notebooks/inference.ipynbInferência com modelos serializados via dill
notebooks/metrics/for_benchmark/CSVs de validação cruzada

Os modelos são serializados com dill em vez de torch.save padrão, preservando a definição completa da classe. Isso elimina a necessidade de reimportar arquiteturas customizadas no ambiente de inferência — relevante para implantação em campo por equipes de arqueologia sem expertise em PyTorch.

Tempos de treinamento registrados (RTX 4070 Super):

Arquitetura5-fold CV (30 ep/fold)Treino completo (60 ep)
BEGL-UNet83 min38 min
Attention-Residual105 min49 min
SCA-BEGL-UNet116 min54 min

8. Limitações e próximos passos

Limitações:

  • Dataset restrito a um único sítio arqueológico — generalização para outros contextos geológicos do nordeste não está demonstrada.
  • Amostra pequena (82 imagens) impede testes de significância estatística formais.
  • Sem avaliação em imagens de campo com GPS/IMU para georreferenciamento automático.

Direções futuras (conforme o artigo):

  • Expansão do dataset para outros sítios do Piauí e da Serra da Capivara.
  • Vision Transformers para modelagem de dependências espaciais de longo alcance.
  • Auto-supervisão para aproveitar imagens não anotadas de painéis rochosos.
  • Integração com reconstrução 3D de afloramentos e estimativa automática de dimensões de gravuras.
  • Exploração de modelos de difusão (Stable Diffusion + ControlNet) para realce de imagens degradadas — implementação preliminar em gan.py, separada do pipeline de segmentação.

Referências

  • Melo, L., Vieira, L. G. D. M. L., & Araújo, M. (2025). Evaluation of Attention Mechanisms in U-Net Architectures for Semantic Segmentation of Brazilian Rock Art Petroglyphs. arXiv:2511.11959.
  • Bai, C., Liu, Y., Zhou, P., Wang, X., & Zhou, M. (2023). BEGL: boundary enhancement with Gaussian Loss for rock-art image segmentation. Heritage Science, 11(1). DOI 10.1186/s40494-022-00857-5
  • Ronneberger, O., Fischer, P., & Brox, T. (2015). U-Net: Convolutional Networks for Biomedical Image Segmentation. MICCAI.
  • Oktay, O. et al. (2018). Attention U-Net: Learning Where to Look for the Pancreas. MIDL.
  • Woo, S. et al. (2018). CBAM: Convolutional Block Attention Module. ECCV.

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