Segmentação de tecido com frontend ColorNaming congelado e decoder de 62 mil parâmetros

João LeonardiJoão LeonardiORCID5 min
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Arquitetura de dois estágios para segmentar gordura, músculo e fundo em carcaças ovinas: frontend ColorNaming congelado (11 canais de probabilidade de cor, sem treino) + decoder convolucional com 62\sim 62 mil parâmetros. U-Net e DeepLabV3+ pedem dezenas de milhões de pesos e corpora anotados caros; a pergunta é se essa fração de parâmetros basta para tecido de carcaça.

Neste post reportamos o pipeline, as métricas de segmentação e o papel do ColorNaming como âncora de acabamento na série — o mesmo frontend que o Apex consome como instrumento de pareamento e hub dos papers-método RGB.

O extrator de features congelado

O ColorNaming (Van de Weijer et al., 2009) mapeia valores RGB para 11 categorias linguísticas de cor: preto, azul, marrom, cinza, verde, laranja, rosa, roxo, vermelho, branco e amarelo. O mapeamento vem de experimentos de nomeação de cor por humanos, e fica armazenado em uma tabela de consulta (LUT) de 32×32×32×1132 \times 32 \times 32 \times 11 entradas.

Para cada pixel, a função devolve uma distribuição de probabilidade sobre as 11 cores. A LUT não recebe atualização por gradiente, ou seja, permanece congelada durante o treino. Uma imagem de entrada H×W×3H \times W \times 3 vira, assim, um tensor de features H×W×11H \times W \times 11, sem nenhum parâmetro treinável no extrator.

O decoder leve

O decoder tem quatro camadas convolucionais. As três primeiras aplicam normalização em lote e ativação ReLU. A última usa um núcleo 1×11 \times 1 para projetar as features nas classes de saída. Para o caso binário, uma sigmoide converte o canal único em P(gordura). Para o caso multiclasse, uma softmax produz P(fundo), P(músculo) e P(gordura).

CamadaParâmetros
Conv2d(11 → 64, 3×3) + BN + ReLU6.400
Conv2d(64 → 64, 3×3) + BN + ReLU36.928
Conv2d(64 → 32, 3×3) + BN + ReLU18.496
Conv2d(32 → 1, 1×1), caso binário33

A soma dos parâmetros treináveis do decoder é de aproximadamente 62 mil. A figura a seguir mostra o pipeline binário completo, da imagem de entrada ao mapa de probabilidade de gordura.

Pipeline de classificação binária. A imagem RGB passa pelo frontend congelado (ColorNaming), gera 11 mapas de cor, e um decoder de quatro camadas produz o mapa P(gordura).
Pipeline de classificação binária. A imagem RGB passa pelo frontend congelado (ColorNaming), gera 11 mapas de cor, e um decoder de quatro camadas produz o mapa P(gordura).

Protocolo experimental

O conjunto tem 23 imagens de carcaças ovinas, capturadas sob iluminação controlada. Cada imagem tem anotação por pixel para três classes: fundo, músculo e gordura. As imagens foram redimensionadas para 512×512512 \times 512 pixels e divididas em 18 de treino e 5 de validação.

Ambos os modelos foram treinados com o otimizador Adam, taxa de aprendizado de 10310^{-3} e lote de 4. A perda combina entropia cruzada e perda de Dice, com peso igual. Aplicou-se parada antecipada com paciência de 20 épocas. O modelo binário convergiu na época 94, e o multiclasse na época 130.

O desempenho foi medido por Interseção sobre União (IoU) e coeficiente de Dice, no conjunto de validação de 5 amostras.

Resultados

Na tarefa binária, o modelo alcançou IoU de gordura de 0,924 e Dice de 0,961. A precisão foi de 0,941 e a revocação de 0,981.

TarefaMétricaValor
BináriaIoU gordura0,924
BináriaDice0,961
BináriaPrecisão0,941
BináriaRevocação0,981
MulticlassemIoU0,577
MulticlasseIoU gordura0,922
MulticlasseIoU músculo0,565
MulticlasseIoU fundo0,244

Na tarefa multiclasse, a IoU média foi de 0,577. A gordura, portanto, foi segmentada com IoU muito acima das outras duas classes. A figura seguinte mostra a arquitetura multiclasse, em que o decoder projeta os 11 mapas de cor em três mapas de classe por pixel.

Arquitetura de segmentação multiclasse. O frontend ColorNaming transforma cada pixel RGB em 11 valores de probabilidade de cor. O decoder produz probabilidades por pixel para fundo, músculo e gordura.
Arquitetura de segmentação multiclasse. O frontend ColorNaming transforma cada pixel RGB em 11 valores de probabilidade de cor. O decoder produz probabilidades por pixel para fundo, músculo e gordura.

Quanto aos parâmetros treináveis, o decoder proposto tem cerca de 62 mil, contra cerca de 31 milhões da U-Net e cerca de 41 milhões da DeepLabV3+. A razão em relação à U-Net é de aproximadamente 500 vezes. Essa comparação usa contagens publicadas das arquiteturas de referência, e não um treino próprio delas neste conjunto.

Discussão

Os resultados indicam que as features de ColorNaming sustentam a segmentação de gordura quando combinadas com um decoder mínimo. A IoU de gordura, entre 0,922 e 0,924 nas duas tarefas, sugere que a representação de 11 cores captura informação discriminativa para essa classe.

A gordura alcançou IoU bem acima do músculo e do fundo. Três fatores podem explicar a diferença. A gordura exibe tons brancos e amarelos consistentes, que mapeiam de forma confiável para canais específicos de cor. O músculo varia entre vermelho e marrom, com sobreposição a outras estruturas. O fundo ocupa proporções variáveis entre imagens, o que dificulta a generalização.

A eficiência computacional decorre de dois pontos. O decoder tem cerca de 500 vezes menos parâmetros que a U-Net. Além disso, a LUT opera por consulta em tabela, e não por convolução em ponto flutuante. Essas propriedades podem tornar a abordagem compatível com sistemas embarcados ou ambientes de recurso limitado.

Limitações

  • O conjunto de 23 imagens restringe a generalização. Não foi feita validação cruzada, por restrição de tamanho amostral.
  • Não houve comparação com baseline treinado no mesmo conjunto. As afirmações de eficiência de parâmetros repousam em contagens publicadas, e não em experimento controlado.
  • Não houve validação física. Faltaram medidas de paquímetro ou dissecção para correlacionar as regiões previstas com a anatomia.
  • O ColorNaming pode ser sensível a variações de iluminação não representadas no treino. Testes sob iluminação diversa são necessários.

Conclusão

Este registro descreve um método leve para segmentação de tecido em carcaças ovinas. A combinação de um frontend ColorNaming congelado com um decoder de cerca de 62 mil parâmetros alcançou IoU de 0,924 para gordura, e IoU média de 0,577 para três classes. A abordagem oferece uma alternativa de baixo custo computacional às arquiteturas convencionais, em especial para dados de treino escassos ou hardware limitado. Trabalhos futuros incluem ampliar o conjunto, comparar com arquiteturas padrão em condições controladas, validar contra medidas físicas e avaliar a robustez à iluminação.

Referências

  • van de Weijer, J., Schmid, C., Verbeek, J., Larlus, D. (2009). Learning color names for real-world applications. IEEE Transactions on Image Processing, 18(7), 1512-1523.
  • Ronneberger, O., Fischer, P., Brox, T. (2015). U-Net: Convolutional networks for biomedical image segmentation. MICCAI 2015, 234-241.
  • Chen, L.-C., Zhu, Y., Papandreou, G., Schroff, F., Adam, H. (2018). Encoder-decoder with atrous separable convolution for semantic image segmentation. ECCV 2018, 801-818.
  • Craigie, C. R., Navajas, E. A., Purchas, R. W., et al. (2012). A review of the development and use of video image analysis (VIA) for beef carcass evaluation. Meat Science, 92(4), 307-318.

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